Toward to the Heart of the Mountain [PT] - Carlos Dias Photography
Iced Day

Toward to the Heart of the Mountain

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O despertador tocou eram 6AM, hora de acordar e preparar tudo para a longa e difícil caminhada que me esperava até ao coração da nossa querida Estrela.

A noite tinha sido calma e confortavelmente bem passada no meu modesto Mazda 2, já habitualmente transformado em autocaravana quando me meto nestas aventuras!

Lá fora reinava a escuridão e um magnífico céu estrelado que só é possível observar nas noites frias de Inverno!

Felizmente ainda há gente pontual e não foi preciso esperar muito para que se juntassem a mim os dois amigos que iriam acompanhar-me nesta aventura pelo maciço central.

O trilho de montanha teve como ponto de partida o Covão D'Ametade(1450m), local emblemático e de obrigatória passagem para quem quer conhecer um pouco mais da Serra da Estrela para além da famosa Torre.

Situado no sopé do Cântaro Magro, afloramento granítico que atinge os 1928m de altitude, por aqui é possível observar os primeiros passos do rio Zêzere e as encantadoras Faias que no Outono dão aquele toque de cores quentes ao local.

Devido à sua indiscutível beleza, este é um dos locais de eleição pelos fotógrafos de paisagem natural, merecido de ser fotografado em qualquer altura do ano! Aqui a natureza está por todo a parte! 

Contudo, os meus objetivos fotográficos para aquela manhã eram outros!

Os relógios marcavam sensivelmente 6:30AM quando demos início à caminhada rumo ao Covão Cimeiro(1630m).

A primeira parte do trilho coincidia com a rota do maciço central (marcado a rosa), já realizada por mim em meados de Agosto do ano passado!

Sendo considerado por muitos o trilho mais perigoso e difícil da Serra da Estrela, tentem imaginar o que será fazê-lo com neve, gelo e rajadas de vento FORTE!!!

Pois é, foi tudo a que tivémos direito...

Take a break and look behind

Estando o nascer do sol marcado para as 7:44AM, tínhamos pouco mais de 1h para conseguir alcançar o local pretendido a tempo de registar todo o seu encanto em plena hora dourada!

A primeira parte da caminhada, tal como previsto, pelo menos para mim, seria uma das mais complicadas.

Uma subida extremamente íngreme e tortuosa entre rochas, neve e gelo, em que foi preciso ter um especial cuidado para não torcer um pé ou dar uma valente queda!

Grande parte do percurso inicial foi feito ainda de noite e para tal foi necessário recorrer a iluminação artificial com "headlamps".

Devido a todos estas adversidades, a nossa progressão foi mais lenta do que o inicialmente previsto, tendo sido necessário cerca 50min até atingir o local onde decidi fazer este primeiro registo (Photo 1).

À medida que íamos escalando a montanha, por detrás de nós começavam a aparecer os primeiros sinais de luz que em sintonia com as nuvens presentes no horizonte davam lugar a um espectáculo e a uma vista de encher o olho a qualquer um!

Não era meu objetivo parar de caminhar, mas a verdade é que devido ao nosso atraso, eram já ínfimas as esperanças de conseguir alcançar o tal local a tempo de registá-lo com as tais cores quentes. Na verdade, essas cores quentes estavam ali, mesmo à nossa frente e era hora de me render e aproveitar o momento!

Foi assim que, sob rajadas de vento forte capazes de me mandar ao chão, segurei no tripé e na máquina como se dependesse disso para viver e fiz esta foto!

Não tive muito tempo, nem condições para o fazer, e devido à ampla gama dinâmica de tons presentes na cena que pretendia registar, optei por fazer várias exposições da mesma composição para posteriormente editá-las em photoshop e montar uma imagem HDR (High Dynamic Range).

Por norma, não é uma técnica que goste muito de usar, prefiro recorrer a filtros ND graduados, mas atrever-me a tirá-los para fora debaixo daquele VENTO todo, seria certamente para os ver voar!

Foto feita e era altura de continuar a subir lentamente as encostas geladas do Cântaro Magro, cravando a biqueira das botas de forma a fazer degraus para facilitar a vida da pessoa que vinha atrás!

Atingido finalmente o Covão Cimeiro, dispendemos aqui alguns minutos para recarregar baterias!

O cansaço era evidente na cara de todos, mas tendo chegado até ali estava fora de questão voltar para trás! Afinal de contas o pior já tinha passado...ou não!!!

Iced Day

Geograficamente já não estávamos muito longe do tão aguardado local, contudo ainda nos faltava uma centena de metros sempre a subir até à aresta lateral do Cântaro Gordo(1875m).

Assim que lá chegámos, ouço a seguinte pergunta: "Ainda falta muito para chegarmos ao tal local onde queres fotografar?"

Nesse preciso momento, avistámos lá em baixo aquilo que nos tinha movido até ali!

Bem no sopé do Cântaro Gordo era possível observar uma lagoa de origem glaciar com a sua superfície parcialmente congelada, a Lagoa dos Cântaros!

Situada a 1650m de altitude, esta é uma das lagoas mais bonitas e inacessíveis do Parque Natural Serra da Estrela que só está ao alcance dos mais audazes!

Inicialmente a descida até à lagoa parecia fácil! "É só neve, qual é o problema?!"

No entanto, as mariolas, pontos de marcação de trilhos pedestres, eram difíceis de se avistar no meio de tanta neve, tendo dificultado bastante a nossa descida até à lagoa.

A neve apresentava-se com mais de 1m de altura, sendo impossível prever o que os nossos pés iam pisar! Um perigo para entorses ou fraturas!!

Inicialmente parecia bastante engraçado ficarmos atolados de neve até à cintura em cada passo que dávamos, mas essa "diversão", que levou a uma quantidade avultada de gargalhadas, rapidamente se transformou em raiva e frustração!

Não estou a exagerar quando digo que eram necessários 5min para conseguirmos avançar 20m naquela neve do demónio!

Passado cerca de 1h, acabávamos finalmente de alcançar as margens da lagoa, lagoa essa que parecia estar relativamente perto quando vista de lá de cima, no ínicio da descida!

Todos, sem exepção, nos encontrávamos num estado deplorável e com uma exaustão extrema, difícil de transcrever por palavras.

Botas completamente encharcadas com bocados de gelo à volta das meias, pernas todas molhadas e arranhadas...enfim, ainda assim podíamo-nos dar por felizes de estarmos inteiros!

Enquanto uns aproveitaram para descansar e comer qualquer coisa perto de umas rochas, eu tive que continuar a lutar contra aquela neve e vento do outro mundo, em busca de um local minimamente favorável para uma boa composição fotográfica!

Não foi fácil, e honestamente não fiquei de todo satisfeito, mas foi o melhor que consegui arranjar perante todos os precalços do momento e tendo sido fotografada sem tripé.

Confesso que a minha preocupação principal já não passava por tentar trazer para casa uma boa foto do local, mas sim evitar cair à agua com todo o material fotográfico, cada vez que o vento soprava com mais força! Indescritível!

As previsões davam mau tempo para a tarde, com chuva e possibilidade de queda de neve acima dos 1800m. A prova disso mesmo eram as nuvens bastante carregadas que rapidamente se aproximaram e que estão bem patentes na imagem que aqui vos deixo(Photo 2).

Era hora de voltar!

A tempestade aproximava-se rapidamente e o vento intensificava-se ainda mais!

Estava bem definido entre nós que era impensável regressar pelo mesmo caminho por onde tínhamos vindo!

Aquela não era, certamente, a melhor hora para estarmos "perdidos" no topo da montanha.

Agora, mais do que nunca, tínhamos que ser fortes e fazer um esforço para encontrar o caminho de regresso ao Covão D'Ametade, mesmo quando já nos faltavam as forças para caminhar e lutar contra aquele vento e neve, com a agravante de termos os pés completamente ensopados com água gelada!

Recorrendo ao GPS, e depois de algumas voltas perdidos, lá encontrámos novamente as mariolas e o caminho de regresso aos carros!

Eram 11AM quando, já debaixo de alguns pingos de chuva, chegámos sãos e salvos ao parque de estacionamento do covão.

Nas nossas caras era possível ler um enorme cansaço, mas também uma grande felicidade e sentimento de satisfação e orgulho por termos conseguido superar todas os contratempos que a montanha nos impôs naquela manhã!

Não foi certamente o melhor dia, nem a melhor altura do ano para nos aventurarmos a conhecer a majestosa Lagoa dos Cântaros, mas é só a atrevermo-nos assim, a sair da nossa zona de conforto, que por vezes conseguimos dar um certo valor à vida e apreciar a grandeza dos espaços que nos rodeiam em toda a sua plenitude!!


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